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Cluster Família de Proteção — Disjuntores BT
Poder de interrupção do disjuntor (kA): como escolher pela corrente de curto-circuito
Icu, Ics e Icm: o que cada valor significa, por que um disjuntor subdimensionado em kA explode no curto e como o estudo de curto-circuito entrega os dados certos para especificar o disjuntor correto.
Dimensionar a proteção com o estudo
NBR 5410 — cl. 5.3.5.5.1IEC 60947-2 Ed.6 — Icu / Ics / IcmLaudo com ART/CREA

Resposta rápida
O poder de interrupção do disjuntor é a corrente máxima de curto-circuito que ele consegue interromper com segurança. A norma IEC 60947-2 define dois valores: Icu (capacidade última) e Ics (capacidade de serviço). Para estar em conformidade com a NBR 5410 (cl. 5.3.5.5.1), o kA do disjuntor instalado deve ser igual ou superior à corrente de curto-circuito presumida (Icc) medida ou calculada naquele ponto. Sem o estudo de curto-circuito, não há como confirmar essa condição.
Por que o kA do disjuntor importa tanto quanto o seu ampere (A)?
A especificação de um disjuntor envolve, no mínimo, três parâmetros: a corrente nominal (In), a corrente de disparo (Ir) e o poder de interrupção (kA). Os dois primeiros aparecem em qualquer catálogo. O terceiro, porém, é o que separa um disjuntor que protege de um que explode ao tentar proteger.
Um curto-circuito gera, no primeiro semi-ciclo, uma corrente de pico muitas vezes superior à corrente nominal do circuito. Se o disjuntor não estiver dimensionado para interromper esse nível de corrente, o arco elétrico continua dentro da câmara de extinção, aquece o invólucro, e pode causar desde a destruição do painel até a morte de quem estiver próximo.
O problema, na prática, é que a corrente de curto-circuito de cada ponto da instalação não está escrita em lugar nenhum — ela depende da impedância da rede, do transformador e dos condutores. Só um estudo de curto-circuito produz esse valor com rigor.
Campo · Proteção BT
Disjuntores subdimensionados em kA: o risco que o projeto não vê
Profissionais que trabalham em painéis elétricos industriais estão, em muitos casos, próximos de disjuntores com capacidade de interrupção inferior à Icc do ponto. Não porque foram mal-instalados — mas porque ninguém calculou a Icc na época da obra. Esse é o gargalo que o estudo de curto-circuito resolve antes que um curto real revele.
Eletricista Token com EPI NR-10. A segurança começa na especificação correta do kA.
Icu vs Ics: as duas capacidades que definem o disjuntor
A IEC 60947-2 Ed.6.0:2024 (norma internacional de disjuntores de baixa tensão, adotada como referência no mercado brasileiro) define duas capacidades de interrupção:
Icu — Capacidade última de interrupção
Icu (Ultimate Breaking Capacity) é a corrente máxima de curto-circuito que o disjuntor consegue interromper ao menos uma vez, segundo a sequência de ensaio O–t–CO (abrir, aguardar, fechar e abrir). Após esse ensaio, a norma não exige que o aparelho continue conduzindo a corrente nominal — ele cumpriu sua função de interromper o curto.
Na prática: Icu é o valor que aparece em destaque no catálogo (ex.: “25 kA”, “36 kA”). É o limite superior de corrente de curto que ele suporta.
Ics — Capacidade de serviço
Ics (Service Breaking Capacity) é a capacidade diária real. Após a sequência mais exigente O–t–CO–t–CO, o disjuntor deve seguir apto a conduzir e desligar a corrente nominal normalmente. A IEC 60947-2 estabelece que Ics ≥ 25 % de Icu, e os fabricantes geralmente declaram 25 %, 50 %, 75 % ou 100 % de Icu.
Na prática: Ics é o valor que importa para instalações onde o disjuntor precisa continuar operacional após um curto — que é o caso de 99 % das instalações industriais. Especificar apenas por Icu e não checar o Ics é um erro comum de projeto.
Icm — Capacidade de fechamento (pico)
Há ainda um terceiro valor que deve ser compatível com a Icc: o Icm (Making Capacity), que é a corrente de pico (valor de crista) que o disjuntor suporta no momento do fechamento. A IEC 60947-2 (Table 1) relaciona Icm ao Icu por um fator que depende do cosφ do circuito: para Icu entre 10 kA e 20 kA (cosφ = 0,3), o fator é 2,0 — portanto Icm ≥ 2,0 × Icu. Esse parâmetro aparece no catálogo e deve ser verificado nos barramentos do QGBT.
Icu vs Ics: qual usar na especificação?
Dois valores de kA, dois momentos diferentes de uso
Icu — kA último
O disjuntor interrompe o curto uma vez.Não exige operacionalidade após o ensaio.
Ics — kA de serviço
O disjuntor interrompe e continua operacional.≥ 25 % do Icu (IEC 60947-2 Ed.6).
Na indústria, especificar sempre por Ics ≥ Icc presumida no ponto.
Por que um disjuntor subdimensionado em kA explode no curto
A câmara de extinção de um disjuntor é projetada para suportar a energia do arco elétrico até um determinado nível de corrente. Quando a Icc real supera o kA declarado, o arco não é extinto a tempo:
- O plasma do arco perfura a câmara.
- A pressão interna aumenta rapidamente e o invólucro explode.
- Fragmentos metálicos, gases quentes e chamas saem pelo painel.
- O resultado: destruição do quadro, incêndio e risco de morte para quem estiver próximo.
A NBR 5410 (cláusula 5.3.5.5.1, ) é clara: “A capacidade de interrupção do dispositivo deve ser no mínimo igual à corrente de curto-circuito presumida no ponto onde for instalado.”
A mesma norma abre uma única exceção (cl. 5.3.5.5.1, segunda parte): é possível instalar um dispositivo com kA inferior se houver, a montante, outro dispositivo com a capacidade necessária — e as características dos dois forem coordenadas de forma que a energia que deixam passar não danifique o dispositivo a jusante. Isso é chamado de coordenação de curto-circuito (ou back-up) e também exige cálculo e comprovação via tabela de coordenação do fabricante.
Inspeção · Disjuntores BT
O que o engenheiro confere no painel antes de aprovar o kA
Na vistoria técnica, o engenheiro compara a Icc calculada com o Ics declarado de cada disjuntor instalado. Qualquer ponto onde Ics < Icc gera não-conformidade imediata — e exige substituição ou comprovação de back-up. Esse é o cerne do laudo de verificação elétrica emitido com ART pelo responsável técnico.
Inspeção de painel BT: leitura da placa do disjuntor e confronto com a Icc do nó.
| Trafo (kVA) | Tensão sec. (V) | Icc típica no barr. BT (kA) | kA mínimo do disjuntor principal (Ics) | Faixa comercial recomendada |
|---|---|---|---|---|
| 75 kVA | 220 V | ~5–6 kA | ≥ 6 kA | 10 kA (padrão residencial) |
| 112 kVA | 220 V | ~8–10 kA | ≥ 10 kA | 10 kA ou 15 kA |
| 150 kVA | 220 V | ~10–13 kA | ≥ 13 kA | 15 kA ou 25 kA |
| 225 kVA | 220 V | ~15–20 kA | ≥ 20 kA | 25 kA |
| 300 kVA | 220 V | ~18–25 kA | ≥ 25 kA | 25 kA ou 36 kA |
| 500 kVA | 220 V | ~25–35 kA | ≥ 35 kA | 36 kA ou 50 kA |
| 750 kVA | 220 V | ~35–50 kA | ≥ 50 kA | 50 kA ou 65 kA |
Valores típicos para transformadores de distribuição com impedância de curto Zₙ = 4–6 %, sem contribuição de motores. Fonte: dados típicos IEC/TR 60909-2:2008 (dados de equipamentos para cálculo de curto). O valor real da instalação exige o estudo de curto-circuito com ART.
Como ler o catálogo do disjuntor e confrontar com a Icc presumida
No catálogo do fabricante, o poder de interrupção aparece na ficha técnica da linha, normalmente em uma tabela cruzando a corrente nominal (In) com a classe de serviço (A ou B). O que checar, na ordem:
- Icu declarado (kA rms) — a capacidade máxima. Deve ser ≥ Icc presumida no ponto.
- Ics como percentual de Icu — ex.: “Ics = 50 % Icu”. Para Icu = 36 kA, Ics = 18 kA. É esse Ics que precisa superar a Icc.
- Icm (valor de pico) — verifique se Icm ≥ fator da Table 1 da IEC 60947-2 × Icu. Para Icc entre 10 kA e 20 kA, o fator é 2,0.
- Categoria A ou B — disjuntores Categoria B têm Icw (corrente de curta duração) e suportam o curto por 0,05 a 1 segundo sem abertura instantânea. Isso é obrigatório em esquemas de seletividade com retardo intencional no relé de proteção a montante.
Armadilha comum: comprar o disjuntor pelo Icu de 25 kA e não notar que o Ics = 25 % = 6,25 kA. Se a Icc no ponto é de 15 kA, o disjuntor não está em conformidade com a NBR 5410 para uso contínuo. Essa verificação só aparece no estudo elétrico.
1
Calcular a Icc
Estudo de curto-circuito pelo método das impedâncias (IEC 60909-0) em cada nó crítico da instalação.
2
Comparar com Ics
Para cada disjuntor instalado: Ics (do catálogo) ≥ Icc (do estudo). Se não atende, há não-conformidade.
3
Verificar Icm
No QGBT e nos barramentos principais: Icm ≥ fator IEC 60947-2 Table 1 × Icu para o cosφ da instalação.
4
Confirmar Categoria
Esquemas de seletividade com retardo exigem disjuntores Categoria B (Icw) a montante.
5
Laudo com ART
Emissão do laudo técnico com ART pelo engenheiro responsável (CREA), comprovando conformidade com a NBR 5410.
6
Monitorar mudanças
Ampliações, novos transformadores ou reconexão à rede alteram a Icc — refazer o estudo.
Onde a norma está hoje
A nova NR-10 (Portaria MTE 737/2026) tem vigência obrigatória a partir de 1º de junho de 2027; até lá vale o texto atual (Portaria SEPRT 915/2019). O poder de interrupção continua ancorado na NBR 5410 (cláusula 5.3.5.5.1), que é norma técnica de instalações de baixa tensão e não muda com a portaria. O que a nova NR-10 reorganiza é a documentação e a análise de risco em torno dela. Veja o que muda na nova NR-10.
Seletividade e poder de interrupção: o estudo que evita os dois erros ao mesmo tempo
Poder de interrupção e seletividade são dois requisitos que interagem. A seletividade garante que, num curto, apenas o dispositivo mais próximo da falta abra — sem derrubar outros circuitos ou a alimentação principal. Mas seletividade com retardo intencional só funciona se o disjuntor a montante aguenta a corrente de curto durante o tempo de atraso sem abrir ou ser destruído.
Isso exige que o disjuntor de nível superior seja Categoria B (com Icw, short-time withstand current). A IEC 60947-2 (cl. 5.4, Table 2) define o Icw mínimo para disjuntores Categoria B: Icw ≥ máx(12 × In ; 5 kA) para In ≤ 2.500 A, e Icw ≥ 30 kA para In > 2.500 A.
O engenheiro que projeta a coordenação e seletividade precisa dos dois: a Icc (do estudo de curto) para confirmar os kA dos disjuntores, e as curvas tempo×corrente para provar a seletividade. Fazer um sem o outro deixa lacunas que só aparecem em condição de falha.
O que muda quando a instalação cresce?
Qualquer adição de transformador, conexo ao sistema de distribuição em paralelo ou ligação a um barramento de maior potência altera a Icc em todos os pontos a jusante. Um disjuntor que estava em conformidade pode sair de conformidade após a ampliação. Por isso, o estudo de curto-circuito não é um documento único — precisa ser revisado a cada mudança significativa da configuração elétrica.
Proteção · Instalação Industrial
Do estudo de curto ao disjuntor correto: o caminho técnico
Toda instalação industrial tem pontos de alta Icc — especialmente próximos ao secundário do transformador, barramentos do QGBT e alimentadores de motores de grande porte. O estudo de curto-circuito mapeia esses pontos e entrega ao projetista os valores de Icc que entram na especificação de cada dispositivo.
Proteção industrial: cada ponto da instalação exige verificação individual da Icc.
Dúvidas frequentes sobre poder de interrupção
Posso usar um disjuntor com kA maior do que a Icc da instalação?
Sim. Superdimensionar o kA nunca gera não-conformidade — só custo. Um disjuntor de 36 kA funciona perfeitamente num ponto com Icc de 10 kA. O problema é o contrário: kA inferior à Icc.
O disjuntor “Class C” ou “High Performance” já garante o kA suficiente?
Não necessariamente. “Classe” e “alta performance” são termos de marketing dos fabricantes. O que importa é o Icu e o Ics declarados na ficha técnica, confrontados com a Icc real da instalação. Sem o estudo de curto, não há como fazer essa confrontação.
O disjuntor de baixa tensão padrão de 10 kA é suficiente?
Depende da Icc do ponto. Para instalações alimentadas por transformadores de até 75 kVA (Icc típica de 5–6 kA), 10 kA é suficiente. Para transformadores acima de 112 kVA, a Icc no barramento do QGBT já pode ultrapassar 10 kA. Só o estudo de curto-circuito confirma o valor real no ponto.
Preciso de laudo para comprovar o kA?
A A NBR 5410 (cláusula 5.3.5.5.1) exige que a capacidade de interrupção do dispositivo seja no mínimo igual à corrente de curto-circuito presumida no ponto — e a Icc presumida só se conhece por cálculo ou medição. O laudo é o documento formal que comprova isso, emitido com ART pelo engenheiro responsável. Sem o laudo, a instalação não tem comprovação documental de conformidade com a norma.
O que acontece se a Icc aumentar por ampliacão da planta?
Os disjuntores existentes que estavam dimensionados corretamente podem deixar de estar, caso a Icc no ponto aumente. É necessário refazer o estudo de curto-circuito e reverificar todos os dispositivos afetados.
Token Engenharia — Engenharia Elétrica Industrial
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