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Coordenograma: Como Ler o Gráfico de Seletividade Tempo × Corrente

Uma fábrica inteira não deveria desligar porque um disjuntor de 20 A atuou na tomada de um vestiário. O coordenograma é o gráfico log-log que mostra, de uma vez, se os dispositivos de proteção trabalham em equipe ou em conflito — e prova a seletividade quando as curvas não se cruzam.

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Gráfico log-log tempo × correnteIEC 60255-151 curvas IDMTCREA + ART estudo assinadoNacional todo o Brasil
Técnico da Token Engenharia ensaiando disjuntores caixa moldada no QGBT, com o painel de comando e proteção ao lado — base do estudo de coordenação e seletividade

Resposta rápida

O coordenograma é o gráfico log-log de tempo (eixo Y) versus corrente (eixo X) que sobrepõe as curvas de todos os dispositivos de proteção de uma instalação. Ele prova seletividade quando as curvas não se cruzam: cada falha é isolada pelo dispositivo mais próximo, sem desligar o restante do sistema.

Imagine uma fábrica inteira desligando porque um disjuntor de 20 A atuou na tomada de um vestiário. Nenhum engenheiro admitiria isso — mas é exatamente o que acontece quando a proteção elétrica não é coordenada e seletiva.

O coordenograma é a ferramenta gráfica que mostra, de uma vez, se os dispositivos de proteção de uma instalação trabalham em equipe ou em conflito. Gestor de facilities, engenheiro de planta e auditor de segurança aprendem a ler esse gráfico neste artigo — sem precisar calcular nada.

O que o coordenograma mostra: os dois eixos e a escala logarítmica

O coordenograma tem dois eixos:

  • Eixo X (corrente, em amperes ou múltiplos do pickup): quanto maior a corrente de falha, mais à direita no gráfico.
  • Eixo Y (tempo, em segundos): quanto mais rápido o dispositivo atua, mais abaixo no gráfico.

Ambos os eixos usam escala logarítmica, porque as correntes numa instalação vão de alguns amperes (sobrecarga leve) a dezenas de quiloamperes (curto-circuito trifásico), e os tempos de atuação vão de milissegundos a dezenas de segundos. A escala log comprime essa faixa enorme num gráfico legível.

Cada dispositivo de proteção (disjuntor, fusível, relé + disjuntor) é representado por uma curva. O software de estudo elétrico plota todas as curvas sobrepostas e o engenheiro analisa se há separação adequada entre elas.

Coordenograma esquemático — gráfico tempo × corrente de três níveis de proteçãoGráfico log-log com as curvas tempo-corrente de um fusível geral de 200 A (teal), um disjuntor geral de 100 A (azul royal) e um disjuntor de ramal de 25 A (navy). O vão indicado entre as curvas representa a margem de 0,30 s adotada como critério de engenharia para garantir seletividade.101001k10k100kCorrente (A) — escala log0,01 s0,1 s1 s10 s100 sTempo (s) — escala logvão ≥ 0,30 sFusível geral (200 A)Disjuntor geral (100 A)Disjuntor de ramal (25 A)Margem mín. 0,30 s

Coordenograma esquemático

O gráfico tempo × corrente de três níveis de proteção

Fusível geral de 200 A, disjuntor geral de 100 A e disjuntor de ramal de 25 A na mesma folha log-log. As curvas do ramal ficam abaixo e à esquerda das do geral: para a mesma corrente de falha, o dispositivo mais próximo da carga atua primeiro. As linhas tracejadas verticais marcam o limiar instantâneo de cada disjuntor.

O “vão” indicado entre as curvas (mínimo de 0,30 s — critério de engenharia amplamente adotado, não cláusula de norma) é o que garante que o dispositivo mais próximo da falha atue primeiro.

As três regiões da curva de um disjuntor no coordenograma

A curva de um disjuntor termomagnético no coordenograma tem três regiões distintas — e cada uma protege contra um tipo diferente de evento:

1

Região térmica (sobrecargas)

Correntes acima do limiar de sobrecarga declarado pelo fabricante (tipicamente a partir de ~1,13× In nos disjuntores conforme a IEC 60947-2). O bimetálico aquece de forma proporcional — quanto maior a sobrecarga, menor o tempo de disparo. Curva descendente e íngreme. Protege o cabo de superaquecimento.

2

Região magnética (curtos moderados)

Correntes entre ~8× In e o limiar instantâneo. A bobina eletromagnética já exerce força, mas o tempo ainda é da ordem de dezenas a centenas de milissegundos.

3

Região instantânea

Acima do limiar instantâneo (a linha vertical no gráfico), o disjuntor atua em poucos milissegundos — tempo declarado pelo fabricante. É a proteção contra curtos-circuitos severos. Relés digitais permitem ajustar esse limiar com precisão.

Relés de proteção (elementos 50/51 do sistema ANSI) seguem as curvas IDMT definidas pela IEC 60255-151:2009 — as mais comuns em subestações industriais brasileiras são a Normal Inverse (Curva A), a Very Inverse (Curva B) e a Extremely Inverse (Curva C). Cada uma tem constantes k e α próprias, que determinam o formato da curva no coordenograma.

No âmbito da norma, a faixa efetiva de operação das curvas IDMT vai de duas vezes o pickup (Gs) até vinte vezes o pickup — abaixo ou acima desses limites, a operação não é garantida pela norma e o coordenograma deve indicar essa extrapolação.

Curvas IDMT e a margem de coordenação: os números que o engenheiro ajusta

A seletividade cronométrica — a mais comum em média e baixa tensão industrial — funciona assim: cada nível de proteção recebe um TMS (Time Multiplier Setting) diferente. Quanto mais próximo da carga, menor o TMS — e mais rápida a curva.

Curva IEC 60255-151 Nome popular Constante k Constante α Uso típico em subestação BT/MT
Curva A Normal Inverse (NI) 0,14 0,02 Proteção geral de alimentadores da distribuidora
Curva B Very Inverse (VI) 13,5 1 Alimentadores industriais, boa discriminação entre níveis
Curva C Extremely Inverse (EI) 80 2 Motores e transformadores (curva mais íngreme)
Curva D (IEEE MI) IEEE Mod. Inverse 0,0515 0,02 Sistemas com relés de fabricação norte-americana
Curva E (IEEE VI) IEEE Very Inverse 19,61 2 Alternativa à IEC B em equipamentos importados
Curva F (IEEE EI) IEEE Extrem. Inverse 28,2 2 Alta discriminação em subestações com grande variação de Icc

Constantes das seis curvas paramétricas da IEC 60255-151:2009 (Annex A normativo, Table A.1). Fórmula de operação: t = TMS × [k ÷ ((I/Is)α − 1) + c], onde c = 0 para as curvas IEC (A/B/C) e c > 0 para as curvas IEEE (D/E/F). Fonte: IEC 60255-151:2009, Annex A, Table A.1.

A margem mínima entre curvas consecutivas — o “vão” que aparece no coordenograma — é usualmente fixada em 0,30 s no ponto de operação crítico. Esse valor não está na IEC 60255-151 (a norma trata das curvas em si, não do critério de margem); ele vem do critério de engenharia consagrado pela prática e por referências como o NPAG (Network Protection & Automation Guide). O estudo de coordenação do engenheiro deve declarar qual margem foi adotada e em qual ponto de corrente ela foi verificada.

Quando as curvas se cruzam no coordenograma, a proteção não é seletiva naquele ponto: dependendo da magnitude da falha, pode atuar o dispositivo de montante em vez do de jusante, desligando mais carga do que o necessário.

Coordenação, seletividade e proteção de retaguarda: a trinca que o estudo equilibra

Esses três conceitos andam juntos e é comum confundi-los:

  • Coordenação: os dispositivos de proteção foram escolhidos e parametrizados para trabalhar em conjunto — suas curvas no coordenograma se encaixam sem sobreposição indesejada.
  • Seletividade: consequência da coordenação bem-feita — apenas o dispositivo mais próximo da falha atua, preservando o restante da instalação energizado.
  • Proteção de retaguarda: quando o dispositivo mais próximo da falha não atua (falha do relé, do disjuntor ou da cadeia de disparo), o dispositivo de montante entra como segunda linha de defesa. O coordenograma precisa garantir que essa retaguarda também opere corretamente.

A NBR 5410, em sua cláusula 5.3.5.5.1, exige que a capacidade de interrupção de cada dispositivo seja no mínimo igual à corrente de curto-circuito presumida no ponto onde ele está instalado — é o poder de interrupção em kA que se escolhe pela corrente de curto-circuito. A coordenação vai além: não basta interromper a corrente — é preciso fazê-lo antes do dispositivo de montante e sem causar danos ao de jusante. Para a média tensão (até 36,2 kV), a NBR 14039:2021 rege as instalações elétricas e serve de base para o dimensionamento de proteções em subestações industriais.

Seletividade cronométrica ou amperométrica: qual aparece no coordenograma

Existem duas formas principais de garantir seletividade num sistema elétrico industrial, e ambas ficam visíveis — ou não — no coordenograma:

  • Seletividade cronométrica (por tempo): cada nível de proteção recebe um TMS diferente. O dispositivo de jusante tem TMS menor (atua mais rápido) que o de montante. É a forma mais difundida em instalações BT e MT brasileiras. Ponto fraco: o dispositivo de montante sempre demora um pouco mais para atuar em qualquer magnitude de falha — e tempo a mais na fonte significa mais energia incidente de arco elétrico ali.
  • Seletividade amperométrica (por corrente — fusíveis): baseia-se na diferença de corrente de pickup entre os dispositivos. Funciona bem quando as impedâncias da rede criam uma queda de corrente significativa entre o ponto de falha e a fonte. Mais simples, mas depende da topologia da rede.

O coordenograma torna visível qual dos dois critérios está sendo usado — e expõe onde um deles falha. Uma instalação que confia só na seletividade amperométrica pode perder a seletividade se a impedância da rede for baixa (Icc alta disponível em vários pontos). O estudo de coordenação quantifica esse risco e indica se é necessário migrar para a cronométrica ou adotar seletividade lógica (ZSI) em níveis específicos. Para estimar a ordem de grandeza da energia liberada num ponto, a calculadora de arco elétrico do hub de ferramentas dá o primeiro balizamento.

O relé no painel e o ponto na curva

Cada relé ou disjuntor de uma subestação industrial já foi parametrizado para operar dentro de uma faixa específica do coordenograma. O hardware está no painel — o estudo mostra se o ajuste está correto. Relés eletromecânicos antigos muitas vezes não têm mais as curvas catalogadas pelo fabricante: nesses casos o engenheiro levanta a curva por ensaio ou adota curvas padronizadas da IEC 60255-151 de forma conservadora — e o coordenograma registra a incerteza com banda de tolerância.

O que a NR-10 e o projeto elétrico exigem — e onde o coordenograma entra

Não existe um artigo da NR-10 que diga “contrate o estudo de seletividade” — nem no texto atual, nem na nova redação. O que existe são exigências documentais e de projeto que o coordenograma é quem consegue atender.

No texto atual da NR-10 (item 10.2.4), carga instalada acima de 75 kW obriga o Prontuário de Instalações Elétricas. Atenção ao que esse limiar significa: 75 kW é gatilho do prontuário, não do estudo de seletividade. O coordenograma entra ali como documento técnico de projeto e proteção — a norma não o nomeia. E esse limiar de 75 kW deixa de existir na nova redação: o prontuário passa a ser exigido de sistema elétrico de potência ou de instalações em média e alta tensão (item 10.15.6).

Na prática, quatro situações puxam o coordenograma para a mesa:

1
Prontuário (PIE)

Carga acima de 75 kW exige o prontuário no texto atual — e o coordenograma entra como documento de projeto e proteção.

2
Projeto elétrico

NBR 5410 e NBR 14039: o projeto precisa comprovar a coordenação entre os dispositivos.

3
Auditoria e laudo

Seguradoras e auditores de SST pedem o coordenograma como evidência de projeto seguro.

4
Troca de relés

Qualquer alteração na proteção invalida o coordenograma anterior e pede estudo novo.

A nova NR-10 (Portaria MTE 737/2026) tem vigência obrigatória a partir de 1º de junho de 2027; até lá vale o texto atual (Portaria SEPRT 915/2019). Vale para o coordenograma como vale para qualquer documento técnico do prontuário: o que se produz hoje segue o texto de 2019. Veja o que muda na nova NR-10.

O ponto prático: a cobrança do coordenograma não vem necessariamente da NR — vem do engenheiro calculista que assina o projeto e do auditor que cobra o prontuário. Empresa sem o documento não consegue demonstrar que sua instalação é segura, mesmo que ela seja.

Perguntas frequentes

O coordenograma substitui o projeto elétrico?

Não. O coordenograma é um dos documentos que integram o projeto elétrico de proteção — ao lado do diagrama unifilar, do memorial de cálculo e da lista de ajustes. Sozinho, ele não comprova a conformidade com a NBR 5410 ou com a NBR 14039.

Qual a diferença entre seletividade total e parcial?

Na seletividade total, qualquer falha é isolada pelo dispositivo mais próximo, independentemente da magnitude da corrente. Na seletividade parcial, isso só vale até uma certa corrente — acima do limiar, o dispositivo de montante pode atuar junto. A diferença aparece diretamente no coordenograma: seletividade total significa que as curvas não se cruzam em nenhum ponto da faixa de coordenação.

O engenheiro precisa estar no local para fazer o estudo?

Não necessariamente para o cálculo — mas o levantamento de dados sim. São necessários a topologia do sistema (diagrama unifilar), as placas de dados dos transformadores e cabos e os ajustes atuais dos relés. Com esses dados, o estudo pode ser realizado remotamente. Para subestações de média tensão, recomenda-se visita técnica de inspeção concomitante.

Com que frequência o coordenograma precisa ser atualizado?

Sempre que houver alteração na topologia do sistema: nova carga significativa, substituição de transformador, instalação de gerador de emergência, troca ou reparametrização de relés. Não há prazo fixo em norma — a obrigação é de manter a documentação atualizada em relação ao estado real da instalação.

A Token Engenharia emite o estudo com ART?

Sim. Todo estudo de coordenação e seletividade entregue pela Token Engenharia é acompanhado de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) junto ao CREA, conforme a Lei 6.496/77. É a assinatura do engenheiro responsável que dá validade jurídica ao documento perante auditorias e seguradoras.

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