ESTUDO DE CURTO-CIRCUITO · CLUSTER PROTEÇÃO

Corrente de curto-circuito: como calcular a Icc presumida de uma instalação

Método das impedâncias passo a passo — da rede da concessionária ao disjuntor correto. Com exemplo numérico, fórmulas verificadas na IEC 60909-0:2016 e tabela de impedâncias típicas.

Contratar o estudo de curto-circuito

Metodologia IEC 60909-0:2016NBR 5410 cláusula 5.3.5.5.1Exemplo numérico resolvido
QGBT com disjuntores caixa moldada durante ensaio de isolacao com megometro

Resposta rápida

A corrente de curto-circuito presumida (Icc) é calculada pela equação Icc = c·Un / (√3·Zk), onde Un é a tensão entre fases e Zk é a soma das impedâncias da rede, do transformador e dos cabos até o ponto de falta. O fator c vale 1,05 para redes BT com tolerância ±6 % (IEC 60909-0:2016, Table 1). A Icc define o poder de interrupção mínimo do disjuntor: pela NBR 5410 (cláusula 5.3.5.5.1), o Icu deve ser maior ou igual à Icc presumida no ponto de instalação.

O que é Icc presumida e por que ela define o disjuntor

Quando um curto-circuito ocorre numa instalação industrial, a corrente que circula não é limitada pela carga — ela é limitada apenas pelas impedâncias dos equipamentos entre a fonte de energia e o ponto de falta. Essa corrente máxima possível chama-se corrente de curto-circuito presumida, abreviada como Icc ou I”k na notação da norma.

A NBR 5410, na cláusula 5.3.5.1, exige que as correntes de curto-circuito presumidas sejam determinadas em todos os pontos julgados necessários da instalação — por cálculo ou por medição. Não é uma formalidade: é o dado que governa todas as decisões de proteção.

Por que ela define o disjuntor? A cláusula 5.3.5.5.1 da NBR 5410 é direta: “A capacidade de interrupção do dispositivo deve ser no mínimo igual à corrente de curto-circuito presumida no ponto onde for instalado.” Em outras palavras, um disjuntor instalado onde a Icc é de 5 kA precisa ter Icu ≥ 5 kA. Se você comprar o equipamento errado — e no Brasil isso acontece porque a Icc raramente é calculada antes da compra — o disjuntor pode não abrir no curto, gerar arco elétrico e incendiar o painel.

O cálculo não é opcional. É o pré-requisito para qualquer projeto de proteção correto.

Os 3 componentes da impedância do sistema

O método das impedâncias (IEC 60909-0:2016) constrói a impedância total da rede Zk somando três contribuições em série, cada uma medida a 20 °C para obter a corrente máxima (condição de temperatura normativa — IEC 60909-0:2016, §7.1.2):

1

Impedância da rede (Zrede)

Vem da potência de curto-circuito declarada pela concessionária: Zrede = Un² / Scc_rede, onde Un é a tensão entre fases. Para uma rede de 13,8 kV com Scc = 250 MVA, Zrede referida ao secundário (380 V) é aproximadamente 0,58 mΩ. Quando o valor não está disponível, a IEC 60909-0 permite assumir rede infinita (Zrede ≈ 0), gerando resultado conservador.

2

Impedância do transformador (ZT × KT)

Calculada a partir da tensão de curto-circuito percentual uk (dada na placa): ZT = (uk/100) × (Un²/Sn), com Un sendo a tensão entre fases do secundário. Para trafo 500 kVA com uk = 4 % e Un = 380 V: ZT = 0,04 × (380²/500 000) = 11,55 mΩ. O fator de correção KT = 0,95 × cmax / (1 + 0,6 × xT) ajusta a temperatura e a condição operacional (IEC 60909-0:2016, eq. 12a §6.3.3) — no exemplo vale 0,976.

3

Impedância dos cabos (Zcabo)

Para cada trecho de cabo, Zcabo = √(R² + X²), com R e X por quilômetro extraídos do catálogo do fabricante a 20 °C (IEC 60909-0:2016 §7.1.2). Em circuito trifásico, o comprimento por fase é o comprimento do trecho (não se soma ida e volta). Para um cabo 95 mm² de 30 m por fase: R₂₀ = 0,193 Ω/km → R = 5,79 mΩ; X = 0,08 × 0,03 = 2,4 mΩ → Zcabo ≈ 6,3 mΩ.

Cálculo do curto-circuito trifásico simétrico (exemplo numérico)

O curto-circuito trifásico simétrico (Icc3) é o maior de todos os tipos de falta e, portanto, o que define o poder de interrupção (Icu) do disjuntor. A fórmula central da IEC 60909-0:2016 (eq. 33, §7.2.1) é:

Icc3 = c · Un / (√3 · Zk)

Onde:

  • c = fator de tensão (IEC 60909-0:2016, Table 1) — para redes BT (100–1000 V) com tolerância de tensão ±6 %: cmax = 1,05 (Nota 3 da Table 1). Para calcular a corrente mínima (dimensionamento de sensibilidade): cmin = 0,95.
  • Un = tensão nominal entre fases (380 V para trifásico BT industrial padrão; 220 V para monofásico fase-neutro).
  • Zk = impedância total até o ponto de falta.

Passo a passo do exemplo

Instalação típica industrial: trafo 500 kVA, 13,8 kV / 380 V (trifásico), uk = 4 %, Scc da rede = 250 MVA. Cabo de alimentação do QGBT: 95 mm² Cu, comprimento 30 m por fase.

Componente Fórmula Valores Resultado
Rede (concessionária) Zrede = Un² / Scc 380² / 250×10⁶ 0,58 mΩ
Transformador (ZT) ZT = uk% × Un² / Sn 0,04 × 380² / 500 000 11,55 mΩ
Fator KT (correção) KT = 0,95 × cmax / (1 + 0,6 × xT) xT ≈ 0,95 0,976
ZT corrigida ZT × KT 11,55 × 0,976 11,27 mΩ
Cabo 95 mm², 30 m/fase Zcabo = √(R² + X²) R=5,79 mΩ, X=2,4 mΩ 6,27 mΩ
Zk total Σ impedâncias 0,58 + 11,27 + 6,27 18,12 mΩ
Icc3 (trifásico) c × Un / (√3 × Zk) 1,05 × 380 / (1,732 × 0,01812) 12,7 kA
Disjuntor exigido Icu ≥ Icc3 12,7 kA → catálogo comercial Icu ≥ 15 kA
Diagrama do método das impedâncias para cálculo da corrente de curto-circuito presumida (IEC 60909-0:2016): rede + transformador + cabo + ponto de falta + fórmula Icc3 = c·Un/(√3·Zk) com resultado 12,7 kA para sistema 380 V

DIAGRAMA · MÉTODO DAS IMPEDÂNCIAS

Fluxo completo do cálculo: da rede ao disjuntor

O diagrama mostra os três componentes somados para obter a Zk total (18,12 mΩ neste exemplo, sistema trifásico 380 V) e a aplicação direta da equação Icc = c·Un/(√3·Zk) da IEC 60909-0:2016. Com Icc3 = 12,7 kA, o disjuntor no barramento deve ter Icu ≥ 15 kA (próxima classe comercial acima na IEC 60947-2).

Exemplo para trafo 500 kVA / 380 V, Scc_rede = 250 MVA, cabo 95 mm² / 30 m por fase. Metodologia: IEC 60909-0:2016 · Temperatura: 20 °C (corrente máxima).

Curto fase-terra vs. trifásico: qual usar para quê

O cálculo da Icc não se resume ao curto trifásico. Dependendo do sistema de aterramento, outros tipos de falta podem ser relevantes:

Tipos de curto-circuito

IEC 60909-0:2016 — três situações de falta, três correntes

Corrente máxima (Icu)

Curto trifásico simétricoDefine poder de interrupção do disjuntor

Corrente mínima (sensibilidade)

Curto fase-terra — depende de Z0Ajusta relé de terra (51N) e DR

Pela IEC 60909-0:2016: Icc1 > Icc3 quando Z0/Z1 está entre 0,23 e 1,0 — nesse caso, a corrente de fase-terra supera a trifásica e deve ser considerada na verificação da proteção de terra.

Tecnico da Token conectando o barramento de baixa tensao sob o transformador

CAMPO · LEVANTAMENTO DE DADOS

Onde os dados do cálculo estão na instalação

A potência de curto-circuito da rede (Scc) está na carta de fornecimento da concessionária ou pode ser medida em campo. A tensão de curto-circuito percentual (uk) está na placa do transformador. Os dados do cabo (bitola, comprimento) estão no projeto elétrico ou no as-built. O estudo começa pelo levantamento desses dados — sem eles, qualquer valor de Icc é estimativa, não cálculo.

Levantamento em campo: placa do transformador e caracterização dos cabos para o estudo de Icc.

Da Icc ao poder de interrupção (kA) do disjuntor — e quando exigir o estudo

Com a Icc3 em mãos, a decisão sobre o disjuntor segue a norma IEC 60947-2 (disjuntores de baixa tensão) e a NBR 5410 (5.3.5.5.1). Os dois parâmetros que importam são:

  • Icu (capacidade última de interrupção) — o valor máximo declarado em kA RMS. Deve ser ≥ Icc3 no ponto de instalação. Após interromper uma corrente igual ao Icu, o disjuntor pode não ser capaz de operar novamente em carga nominal.
  • Ics (capacidade de serviço) — representa 25 %, 50 %, 75 % ou 100 % do Icu (IEC 60947-2). É o valor relevante para instalações onde o disjuntor pode precisar operar em seguida à interrupção de um curto.

Na prática industrial: especifique sempre o Icu ≥ Icc3 do ponto mais crítico do barramento. No exemplo deste artigo, o trafo 500 kVA / 380 V fornece 12,7 kA no barramento — todos os disjuntores instalados ali precisam de Icu ≥ 15 kA (próximo valor comercial acima na série IEC 60947-2).

Quando o estudo de curto-circuito se torna obrigatório

A NBR 5410 exige o cálculo em toda instalação onde o dimensionamento correto dos dispositivos de proteção dependa da Icc (ou seja, em qualquer instalação industrial ou comercial relevante). Em termos práticos, o estudo é indispensável quando:

  • Há transformador próprio da instalação (a Icc não é fornecida pela concessionária).
  • Existe alimentação em média tensão (a rede tem alta potência de curto).
  • São instalados disjuntores de 25 kA ou acima (a seleção precisa ser justificada).
  • O projeto passa por auditoria de NR-10 ou por análise de energia incidente (o estudo de curto-circuito é insumo direto do cálculo de arco elétrico pela NBR 17227:2025). Veja o cálculo de energia incidente completo.
  • Há expansão do sistema com novos transformadores ou geradores (a Icc aumenta).
Potência do trafo uk típico ZT (380 V) Icc3 máx. estimada* Icu mínimo
112,5 kVA 4 % 51,4 mΩ ~4,8 kA 6 kA
150 kVA 4 % 38,6 mΩ ~6,4 kA 10 kA
225 kVA 4 % 25,7 mΩ ~9,5 kA 10 kA
300 kVA 4 % 19,3 mΩ ~12,4 kA 15 kA
500 kVA 4 % 11,55 mΩ ~17,5 kA 20 kA
750 kVA 5 % 9,63 mΩ ~20,5 kA 25 kA
1.000 kVA 5 % 7,22 mΩ ~26,3 kA 36 kA
1.500 kVA 5 % 4,82 mΩ ~37,0 kA 50 kA
2.000 kVA 6 % 4,33 mΩ ~40,5 kA 50 kA

* Icc3 máxima estimada: Scc rede = 250 MVA, cabo curto (≤ 5 m, contribuição desprezível). Representa o pior caso no barramento principal. Com cabo de 30 m / 95 mm² (exemplo deste artigo, trafo 500 kVA), a Icc3 cai para 12,7 kA. O valor real depende do levantamento em campo. Metodologia: IEC 60909-0:2016 · Temperatura: 20 °C (corrente máxima).

Cabos com terminais identificados na caixa de ligacao para verificacao de bitola

METODOLOGIA · DADOS DE CAMPO

Impedância dos cabos: o dado que mais varia entre instalações

A resistência de um cabo de cobre a 20 °C para 95 mm² é tipicamente 0,193 Ω/km (dado de catálogo). Em 30 m por fase (circuito trifásico) isso representa 5,79 mΩ de resistência — suficiente para reduzir a Icc de ~17,5 kA (trafo 500 kVA com cabo curto) para 12,7 kA (com 30 m de cabo). Em instalações com cabos longos ou bitola menor, o efeito é proporcionalmente maior e pode levar a uma classificação de Icu completamente diferente.

Identificação de cabos e terminais para levantamento das impedâncias do sistema.

Quando o cálculo fica complexo: o papel do estudo de engenharia

O exemplo deste artigo abrange uma instalação com um único transformador e um trecho de cabo — o caso mais simples. Na prática industrial, as instalações têm:

  • Múltiplos transformadores em paralelo (a Icc se soma).
  • Geradores que contribuem para o curto (especialmente nos primeiros ciclos, com I”k de gerador calculada pela constante de subtransitória X”d).
  • Motores de grande porte que contribuem com corrente de curto (IEC 60909-0, §6.10 — a contribuição é considerada quando é relevante em relação à corrente total; o critério exato depende da topologia do sistema).
  • Redes malhadas, onde o cálculo de Zk por superposição é computacionalmente intensivo.

Nessas situações, o cálculo manual não é confiável. O resultado incorreto pode levar tanto ao superdimensionamento (custo desnecessário em disjuntores de 36 kA onde 6 kA bastariam) quanto ao subdimensionamento — o risco real.

A Token Engenharia realiza o estudo de curto-circuito com metodologia IEC 60909-0:2016, cobrindo desde instalações simples BT até sistemas industriais com subestações próprias e múltiplas fontes. O relatório entregue inclui: Icc3, Icc2 e Icc1 em cada barramento; correntes de pico (ip) para verificação de barramento; correntes térmicas (Ith) para dimensionamento de cabos; e a recomendação de Icu/Ics para cada disjuntor.

Se você está dimensionando disjuntores, ampliando o sistema ou auditando uma instalação existente, contratar o estudo de curto-circuito é o caminho que garante que cada disjuntor instalado vai abrir quando precisar — e que não vai abrir quando não precisa (seletividade). Quer ver como o curto-circuito e o tempo de proteção se traduzem em risco de arco? Experimente o simulador de arco-flash da Token.

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